Plantas de cobertura reduzir emissões de gases de efeito estufa e tornam lavouras mais resiliente às mudanças climáticas
17-07-2026
Embrapa Cerrados
As plantas de cobertura, um dos pilares do Sistema Plantio Direto (SPD), podem ser uma das principais aliadas da agricultura brasileira no enfrentamento às mudanças climáticas. Além de protegerem o solo, elas ajudam a armazenar carbono, reduzem emissões de gases de efeito estufa (GEEs) e aumentam a resiliência das lavouras aos riscos climáticos.
Esses resultados foram apresentados pela pesquisadora Arminda Moreira de Carvalho, durante a visita à Embrapa Cerrados como parte da programação do 20º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto (ENSPD) e 3º Encontro Mundial do SPD, realizado em Brasília. A palestra, que contou com a participação das bolsistas Raíssa Dantas e Fabiana Ribeiro, reuniu resultados de um experimento de longa duração iniciado em 2005, onde é acompanhado o desempenho de diferentes plantas de cobertura em sucessão ao milho em transição, mais recentemente, à soja.
Arminda Carvalho lembrou que participou de seu primeiro encontro sobre plantio direto em 1995 e que deu continuidade aos estudos desenvolvidos por pesquisadores pioneiros da área. Segundo a pesquisadora, o uso de plantas de cobertura ganhou uma nova dimensão diante da necessidade de tornar a agricultura mais sustentável e resiliente. "Hoje existe uma cobrança muito grande para que a agricultura contribua com soluções para as mudanças climáticas", observou.
Muito além da conservação do solo
As plantas de cobertura leguminosas favorecem a fixação biológica de nitrogênio e as diversas espécies estimulam a atividade dos microrganismos, melhoram a ciclagem de nutrientes e aumentam a infiltração e o armazenamento de água. "Podemos reduzir nossa dependência de fertilizantes quando utilizamos essa tecnologia. Tudo isso aumenta a resiliência dos sistemas agrícolas", destacou.
Um dos principais resultados apresentados refere-se ao carbono armazenado no solo e mitigação das emissões de GEE. As avaliações realizadas periodicamente no experimento de longa duração da Embrapa Cerrados (DF) mostram que determinadas plantas de cobertura conseguem reduzir as perdas de carbono após a introdução da soja na sucessão de culturas. Entre elas, gramíneas como sorgo e trigo apresentaram melhor desempenho por produzirem maior quantidade de biomassa e resíduos com menor relação de carbono e nitrogênio, o que provoca uma decomposição mais lenta.
A pesquisadora informou ainda que o uso de misturas de espécies (mix de plantas de cobertura) representa um caminho promissor justamente porque combina plantas com diferentes velocidades de decomposição, contribuindo para ciclagem mais eficaz de nutrientes e estabilizar os estoques de carbono ao longo do tempo.
Menor emissão de gases de efeito estufa
Outro destaque foi a redução das emissões de óxido nitroso (N₂O), um gás cujo potencial de aquecimento global é cerca de 300 vezes superior ao do dióxido de carbono. Sua principal fonte é o uso de fertilizantes nitrogenados e a decomposição dos resíduos vegetais.
Durante quatro anos, a equipe da Embrapa Cerrados monitorou as emissões em áreas cultivadas com milho utilizando diferentes plantas de cobertura. Os resultados mostraram que algumas espécies conseguem reduzir significativamente essas emissões, com destaque para o guandu, que apresentou um comportamento mitigador graças às suas características de composição química, que influenciam a velocidade de decomposição da matéria orgânica.
Para realizar essas medições, a equipe adaptou um sistema de câmaras estáticas de baixo custo, capaz de coletar gases para quantificar simultaneamente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso diretamente no solo. Essa avaliação amplia a capacidade de geração de dados nacionais sobre emissões do setor agropecuário com custos relativamente baixos dessas pesquisas.
Nitrogênio oriundo da palhada
Os estudos com uso das plantas de cobertura em SPD também mostraram que o nitrogênio absorvido pelo milho vem, principalmente da decomposição da palhada e não do fertilizante aplicado. "A maior parte do nitrogênio acumulado pelo milho vem da mineralização dos resíduos vegetais", explicou a pesquisadora, destacando a braquiária como uma das espécies mais eficientes na reciclagem desse nutriente.
Segundo Arminda, os resultados reforçam que o plantio direto, praticado como Sistema — com rotação de culturas, cobertura permanente do solo e ausência de revolvimento do solo — é um dos caminhos mais promissores para uma agricultura resiliente, inclusive às mudanças climáticas.
A necessidade de ampliar essa adoção do sistema foi reforçada pelo diretor da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP), Rafael Fuentes. Segundo ele, embora cerca de 45 milhões dos 70 milhões de hectares de culturas temporárias do Brasil utilizem a semeadura direta, apenas 6,4 milhões de hectares adotam efetivamente os três princípios do Sistema Plantio Direto. "Existe uma diferença entre a melhor tecnologia disponível e o nível de adoção pelos produtores", afirmou.
Para Fuentes, o desafio já não é apenas produzir conhecimento, mas transformar esse conhecimento em prática no campo. "A cobertura permanente do solo e a biodiversidade por meio da rotação de culturas e uso de plantas de cobertura ainda estão muito longe dos níveis ideais de adoção. Nossa luta, junto com a Embrapa, universidades e demais instituições nacionais e estaduais de pesquisa e extensão, é preencher esse espaço".
Na avaliação do dirigente, muitos agricultores permanecem no plantio direto simplificado por questões econômicas e operacionais, já que a adoção do sistema aumenta a complexidade do manejo da lavoura e da gestão do negócio, além de o mercado ainda oferecer pouca diferenciação por esse esforço. Para ele, mecanismos de remuneração pelos serviços ambientais podem acelerar essa transformação: "Acreditamos que pelo bolso podemos atrair os produtores. Se houver reconhecimento pelo carbono sequestrado e pelos serviços ecossistêmicos prestados, isso pode mudar a intenção das pessoas".
O zoneamento agrícola de risco climático (Zarc), conforme destacado pelo pesquisador Fernando Macena, com a incorporação dos níveis de manejo contemplando a rotação de culturas e as plantas de cobertura é uma ferramenta que deverá incentivar o produtor na adoção do Sistema Plantio Direto em sua plenitude.
Fuentes destacou ainda que pesquisas como as desenvolvidas pela Embrapa Cerrados são fundamentais para esse avanço. "Esse trabalho da pesquisadora Arminda demonstra os benefícios das plantas de cobertura. É um dos componentes dessa mudança”.
Premiações e participações da Embrapa Cerrados
Além de Arminda Carvalho, outros pesquisadores da Embrapa Cerrados apresentaram seus estudos na programação técnica do 20º ENSPD: Ieda Mendes, sobre “Enzimas no Solo: o papel do BioAS na avaliação da regeneração biológica e na saúde do solo”; Lourival Vilela, sobre “Solo, planta e animal — a aliança regenerativa no Sistema Plantio Direto nos trópicos”.
Vilela e Ieda, juntamente com o pesquisador Luiz Adriano, receberam o certificado de mérito “O Conservacionista”, da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, como reconhecimento à sua contribuição e dedicação ao progresso da agricultura sustentável do Brasil.