Manejo ecológico da água na agricultura
Por Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC

A água é um recurso essencial para a vida e para a produção de alimentos, mas a sua disponibilidade e qualidade têm sido ameaçadas por práticas agrícolas ocasionais que degradam o solo, poluem os mananciais e comprometem o ciclo hidrológico nas paisagens rurais. Diante desse cenário, torna-se urgente adotar um manejo ecológico da água nas propriedades agrícolas, que integre conhecimento técnico, respeito aos processos naturais e estratégias produtivas sustentáveis. Essa abordagem não somente protege os recursos hídricos, como fortalece a resiliência das áreas rurais frente a mudanças climáticas e à crescente demanda por alimentos.
O manejo ecológico da água parte da compreensão de que o solo, a vegetação, os corpos d'água e os sistemas agrícolas formam um ecossistema interdependente. Como a terra é manejada, interfere diretamente na dinâmica da água: solos compactados, expostos e quimicamente degradados perdem a capacidade de infiltrar e reter água, favorecendo o escoamento superficial, a erosão e a contaminação de nascentes, rios e aquíferos. Por outro lado, sistemas produtivos que promovem a vida no solo, a cobertura vegetal permanente e a diversidade biológica funcionam como verdadeiras infraestruturas ecológicas de captação, armazenamento e purificação da água.
Nesse contexto, práticas como o uso de adubação orgânica, o plantio de culturas de cobertura, a manutenção de palhada, o manejo agroflorestal e o cultivo em nível são fundamentais. Essas estratégias favorecem a formação de solos agregados e porosos, que permitem que a água da chuva se infiltre com facilidade, recarregando os lençóis freáticos e evitando a erosão. A matéria orgânica presente nos solos atua como uma esponja natural, armazenando a água por mais tempo e liberando-a gradualmente para as plantas, reduzindo a necessidade de controle e aumentando a eficiência do uso hídrico.
A qualidade da água também é beneficiada pelo manejo ecológico. A ausência ou o uso mínimo de insumos químicos sintéticos, somados à intensa atividade microbiana dos solos vivos, reduz significativamente os riscos de contaminação por nitratos, pesticidas e metais pesados. Além disso, os microrganismos presentes em solos bem manejados conseguem metabolizar e degradar compostos tóxicos, contribuindo para a regeneração natural da água que percola pelo perfil do solo. Essa capacidade biofiltrante é essencial para proteger os corpos hídricos e manter a integridade dos ecossistemas aquáticos.
A conservação da vegetação nativa em áreas de preservação permanente, especialmente ao redor de nascentes, córregos e lagos, é outro pilar do manejo ecológico da água. A restauração ou implantação de corredores ecológicos e sistemas agroflorestais ao longo das margens protege contra o assoreamento, filtra impurezas e regula o microclima local, favorecendo a recarga hídrica. Além disso, a presença de vegetação protegida e bem estruturada melhorou o ciclo da água na paisagem, promovendo maior infiltração, menor evaporação e estabilidade hídrica ao longo do ano.
A agricultura orgânica é um exemplo concreto e consolidado de como o manejo ecológico da água pode ser implementado de forma sistêmica. Ao eliminar o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, adotando técnicas conservacionistas e integrando o conhecimento ecológico ao processo produtivo, a agricultura orgânica reduz a pressão sobre os recursos hídricos e transforma a própria propriedade agrícola em um ambiente funcionalmente regenerativo. Além disso, os agricultores orgânicos tendem a utilizar métodos de irrigação mais eficientes, como o gotejamento e a microaspersão, que evitam perdas por evaporação e otimizam o uso da água disponível.
Contudo, o manejo ecológico da água não deve restringir os sistemas orgânicos certificados. Ele pode e deve ser incorporado progressivamente em qualquer modelo produtivo que deseje transitar para formas mais sustentáveis de uso da terra. Práticas como terraceamento, retenção de água em bacias de captação, manejo da umidade com cobertura vegetal, conservação de nascentes, plantio em nível e manejo de pastagens com cobertura viva são exemplos que podem ser adaptados a diferentes escalas e realidades produtivas.
Diante das incertezas climáticas e da crescente escassez hídrica em diversas regiões do planeta, investir no manejo ecológico da água não é somente uma escolha ambientalmente consciente, mas uma estratégia econômica e agronômica de longo prazo. Propriedades que conservam sua água com maior estabilidade produtiva, controle de custos com supervisão e insumos e são mais preparadas para enfrentar períodos de seca, excesso de chuvas ou irregularidades no regime hídrico.
Em resumo, o manejo ecológico da água na propriedade agrícola representa uma conexão com os ciclos naturais da paisagem. Mais do que proteger mananciais ou evitar desperdícios, ele busca restaurar a funcionalidade hidrológica do solo e do ambiente agrícola na totalidade. Integrar essa abordagem ao planejamento e à rotina das atividades rurais é um passo decisivo para construir uma agricultura verdadeiramente sustentável, capaz de produzir com responsabilidade, proteger a biodiversidade e garantir a segurança hídrica para as presentes e futuras gerações.